Jogos do Mediterrâneo: A grande aposta…

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Malta, 1994. Na esplanada do hotel Europa, um grupo de jogadores portugueses da seleção masculina de polo aquático conversava sobre temas diversos. O guarda-redes do Algés – Francisco Rocha (Paquito) era o mais animado. Rodeado pelo Nuno Begonha, um ponta esquerda de sucesso na altura em Portugal. Os dois juntos faziam uma dupla engraçada e ambos contavam umas piadas de circunstância para alguns dos restantes companheiros de equipa. A conversa seguia animada numa manhã de folga da primeira fase de apuramento para o campeonato da Europa que Portugal participou e que estava a decorrer naquela ilha do Mediterrâneo. Nós já tínhamos “levado” 18-5 de Malta e 13-8 de Israel. E só faltava jogar com a França, que tinha ganho a todos e, claro, ia-nos ganhar a nós.

Subitamente, emerge no pátio da esplanada o celebérrimo Dragan Matutinovic, um dos maiores treinadores do mundo de polo aquático, que era na altura selecionador da França e já tinha treinado a Espanha e outros clubes famosos de Barcelona. O croata trazia uns óculos ray-ban de aviador e vinha com outro tipo (eventualmente adjunto) e sentaram-se ambos mesmo ao lado do Paquito a falar num espanhol sofrível. Foi sem dúvida alguma um momento solene para nós que ficamos ali todos nervosos a contemplar o que era considerado na altura um treinador maluco, irascível e que, dizia-se, fazia treinos inacreditáveis. Após um certo silêncio, o Paquito começou a falar com ele. O sérvio, ou Bósnio ou jugoslavo ou seja o que for olhava para ele com desdém e faz-lhe a pergunta de quantos treinos fazíamos por semana. O Paquito lá lhe respondeu que em Portugal se treinava cinco vezes por semana cerca de duas horas. O Matutinovic desatou a rir-se e disse que tínhamos ido para ali brincar ao polo aquático. A França treinava três treinos diários. Era assim. Ponto. E, obviamente, ficamos bastante inquietos. Ao almoço só se falava daquilo e o jogo com a França indiciava ser bastante pesado para nós todos. Já no final do aquecimento, o Paulo Azevedo abeirou-se de mim e perguntou o que eu achava e quantos íamos levar. Respondi-lhe pouco confiante – Se levássemos dez seria espetacular e fomos para a apresentação. Diga-se que estávamos todos muito nervosos, não com a possibilidade da derrota que era mais que certa, mas com a noção da responsabilidade do momento. Ninguém queria sair dali com números proibitivos. Em primeiro lugar por nós próprios e pela nossa seleção, em segundo pela arrogância do célebre treinador.

Foi um jogo memorável para as nossas cores. O Lajos montou bem o esquema tático e conseguimos defender super bem, tendo-se jogado a um nível brilhante, particularmente e também no ataque, com os pivots Zé Augusto e Fernando Martins a darem muito trabalho aos centrais do Nice e do Marselha. Neste capítulo, Fernando Martins marcou mesmo um golo fantástico, perante a incredibilidade dos adversários, o central e o treinador, sempre ele. O homem estava doido e berrava, gesticulava e arrasava com os jogadores dele, da França, diga-se. No último minuto chegou ao cúmulo de empurrar dois suplentes para o campo de jogo, com o mesmo em andamento. Os dois franceses entraram meio de mergulho e de “bomba” perante a complacência dos árbitros e delegado da LEN, que nada fizeram. Nós parámos à espera do penalti, mas ninguém marcou nada e eles marcaram golo. Uma vergonha, mas… o nosso estatuto era mesmo fraquinho. Mesmo assim ficou “apenas” 5-15, afinal os tais dez de diferença que muito nos orgulharam a todos e que nos fizeram sair da água com muita felicidade.

Passados 24 anos, Portugal vai jogar com a França de novo, agora nos Jogos do Mediterrâneo que já estão a decorrer em Tarragona, num vasto conjunto de modalidades. Seguem-se os colossos Sérvia, Montenegro e França, tudo “peixes” muito gordos que nos vão infernizar a vida desportiva. Seguindo a convocatória da atualidade, o guarda-redes Mycola e o Carlos Gomes serão melhores que o nosso Paquito e o Fernando Coelho de 94 (acho eu) e o Tiago Costa, Miguel Mariani, Ricardo Sousa, Salvador, Parati, Pedrinho, João Leite, Rui Ramos, Ricardo Teixeira, Rui Moreira e Maxim de certeza superam em técnica e conhecimentos táticos os anteriores Augustos (o João e o Zé), os Lobos (eu e o meu irmão Gilberto), o Azevedo, o Tójó, o Rui Coelho, o Carlos Nogueira, o Rafael, o Paulo Russo, o Begonha e o Fernando Martins. E, portanto, a minha aposta, aquilo que vos proponho é, no jogo frente à França, perderem por menos de dez! Complicado? Meus caros… ser da seleção é complicado… mas aliciante. E não me venham com desculpas do PIB ou dos orçamentos. Joguem bem e melhorem o nosso(s) resultado(s) que estamos todos a torcer por vocês. Ao Fernando Leite e a toda a comitiva desejo toda a sorte que deverá ser extensiva ao polo feminino.

Estar nos Jogos do Mediterrâneo é um excelente prémio para todos e todas. Obviamente também de certa responsabilidade esta presença portuguesa sob a égide do Comité Olímpico de Portugal.

Uma vez mais força Portugal. E tragam bons jogos e… boas histórias.

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