Beatriz Gonçalves: “A natação sincronizada já faz parte do que eu sou”

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Beatriz Gonçalves, atleta de natação artística no clube GesLoures, recebeu o galardão na categoria de melhor atleta da época – 2017/2018. A nadadora, com 19 anos, conta já com nove internacionalizações, e espera continuar a somar a este número uns quantos mais. Apesar da nomeação para o prémio não ter sido uma surpresa, a atribuição do mesmo significa “um reconhecer deste esforço, do trabalho que eu tenho vindo a realizar em toda a minha carreira”, diz a atleta.

Com que idade começaste a praticar natação sincronizada?

“Comecei mais ou menos aos oito, nove anos.”

Como é que a sincronizada chegou até ti?

“Eu fazia ginástica acrobática e depois comecei a aprender a nadar, e a minha treinadora era a Chilua. Passado algum tempo a Chilua recebeu uma proposta de abrir natação sincronizada lá na Gesloures e começou a recrutar miúdas. Como era altura para chamar pessoas para o desporto, nós (eu e a minha irmã) fomos e experimentar e gostamos. No início era uma brincadeira, mas depois começou a ficar mais sério. Gostei mesmo muito.”

Em relação à época passada, qual foi o momento mais alto que tu sentiste, enquanto atleta?

“Eu penso que, como atleta, todas as épocas são sempre melhores do que as anteriores. Quando temos experiências a nível internacional é sempre melhor porque aproveitamos mais, com mais experiência. Quando se começa a ir a nível internacional é óbvio que isso dá mais orgulho, gostamos mais de fazer porque é internacional. Na equipa e no combinado, e mesmo no dueto, alcançámos pontuações superiores às que estávamos à espera, acho que foi mesmo o momento muito alto. Até acho que ninguém estava à espera! O trabalho que nós tivemos em tão pouco tempo, quer no dueto, quer na equipa ou no combinado mesmo! Foi um bom trabalho. Foi um evoluir, um passo gigante dentro do mundo da sincro, em Portugal.”

É quase como se o facto de competires no estrangeiro,  a representar Portugal, te faça sentir um sentimento maior em relação às provas aqui. É isso?

“Sim. É assim, as provas aqui também têm a sua importância, mas é óbvio que quando se começa a competir a nível internacional  que ficamos muito mais habituadas às provas internacionais que…  é sempre diferente. Não estou a desvalorizar as provas nacionais, realmente também são uma competição importante para a nossa evolução.”

E quando tu pões o pé na plataforma, antes de entrar na água, numa prova internacional, qual é a sensação?

“Sinceramente eu nem sei bem o que é que eu penso naquele momento.  Aquele momento em que nós começamos a contar para começar o desfile de abertura! Acho que é o momento em que já tudo nos sai cabeça, só o esquema. É uma sensação mesmo boa. Neste europeu e em todas as competições quando eu entro para a plataforma penso: É agora. E pronto, é basicamente todo o treino que fizemos, todas as competições que já fizemos são resumidos naquele completo, vai ser “O Completo!”

Quais são as tuas perspetivas relativamente a esta época, em relação às provas, quiçá, jogos olímpicos 2020?

“Enquanto atleta é óbvio que gostava sempre de ir aos olímpicos, mas acho que, apesar de tudo, é muito à frente das minhas oportunidades, que me estão a dar, quer europeus, quer mundiais. Acho que são sempre importantes e, esta época, quero ir às provas internacionais, não só como ao que aconteceu na época passada, e lutar até ao fim.”

E em termos mais objetivos, o que é que tu pensas ser necessário para conseguir esses resultados?

“É trabalho e dedicação. Dedicação àquilo a 100%, porque nós sabemos bem as condições os outros países têm. Mas também não podemos estar sempre a dar essa justificação. Portanto, sim, é realmente muito importante, mas também temos que nos esforçar, também temos que lutar para uns resultados que realmente, de facto, podemos conseguir. E é bom também para começar a abrir caminho para as mais novas, para gerações futuras, que começamos a ganhar, isso é verdade. E é sempre bom dar nome a Portugal. É sempre dedicação e trabalho, muito trabalho.”

Sentes a responsabilidade, enquanto atleta, de abrir caminho para essas atletas mais novas? Para que elas possam sonhar, para que elas possam também ter esse trabalho e essa dedicação que tu tens. Sentes, de alguma forma, alguma responsabilidade em transmitir alguma coisa a essas atletas?

“Sim. Sendo de um escalão mais velho, penso que é normal as mais novas, as infantis principalmente, olharem para nós como um exemplo. Que pensem: um dia quero ser como elas. Quero ir àquelas provas. Porque todas as atletas sonham com o dia em que vão a uma prova internacional. É uma prova fora do país. Acho que todas as atletas que fazem este desporto sonham em um dia chegar mais alto. E, quando nos dão essas oportunidades para nós podermos chegar muito mais alto, as outras veem que nós chegamos mais alto e que podem chegar mais alto e trabalham mais, evoluem mais, para um dia poderem ser até melhores do que nós. Fazer mais do que nós, ir mais além do que nós. E acho que isso é importante. Nós fazemos isto, isto é bom, para elas verem que para elas vai ser diferente. Nós abrimos uma porta, elas vão conseguir continuar a abrir portas para todas as gerações que vêm aí. E acho que é importante. É uma responsabilidade ser um exemplo.”

Tens algum conselho especial para essas meninas pequeninas que te veem como exemplo?

“É trabalhar. Quando somos mais novos ainda não temos noção das coisas. O treino é sempre o que achamos, e quando somos mais novos achamos que não vale a pena trabalhar porque um dia eu vou conseguir, vou ter tempo para isso, mas depois pode ser tarde. Temos sempre que dar o máximo de nós.”

Como é que  a natação artística influencia a tua vida?

“Praticamente… é a minha vida, por assim dizer. Dedico-me à sincro até não poder mais, até não conseguir mais. Já faz parte da minha rotina, já faz parte do que eu sou porque tenho que organizar as coisas consoante a sincro.”

Como é que geres a tua vida pessoal, a tua vida laboral, que neste caso é o estudo, e a natação?

“É sempre complicado. Uma pessoa tem que se adaptar, mas nunca fica fácil. E agora com a faculdade é, em princípio, um pouco mais complicado. Tenho treinos, depois vou para a faculdade, depois volto para os treinos, e depois também tenho que tentar descansar ao máximo. Se tiver que vir treinar, eu vou treinar porque estudar posso depois em qualquer outra altura. Esta é uma oportunidade que eu vou aproveitar porque  não sei se vou ter mais uma oportunidade como esta, deste género, no desporto, na natação sincronizada em Portugal. E é aproveitar ao máximo, da melhor forma… Às vezes é um bocado complicado.”

Falaste em Portugal, e no facto de ser complicado o fazer ou ser atleta de natação artística cá. Porquê?

“É mais por que, em Portugal, a natação artística nunca é um desporto falado. Nunca foi. Agora a federação está a começar a apostar mais, o que é ótimo porque tens mais objetivos. Nós estamos a tentar cumprir, e conseguimos, neste europeu. É como começares a apostar num desporto meio incerto. É um pouco complicado em Portugal.”

Como é que achas que podia ser uma alternativa para o tornar mais visível, por exemplo?

“Nem toda a gente gosta de ver… Passarem anúncios na televisão, as nossas provas nacionais podiam passar na televisão mesmo. Eu vejo os programas na RTP2, aos domingos, de campeonatos de ginástica… nunca passa natação sincronizada. Agora, a natação sincronizada não é muito vulgar, então eu acho que podiam fazer reportagens, nem que fossem mais reclames, nem que fossem as provas internacionais, podiam passar também.”

Crédito da foto: Mariana Marques, Diretora Técnica Nacional de Natação Artística

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